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Violência
01.10.2014

Estudantes exigem justiça para ataque policial que deixou seis mortos, 17 feridos e 58 desaparecidos

Marcela Belchior
Adital

Ações misteriosas de agentes de polícia na cidade mexicana de Iguala, Estado de Guerrero, deixaram um saldo trágico de seis pessoas mortas, 17 feridas e 58 desaparecidas na madrugada do último dia 26 para 27 de setembro. O grupo de 80 jovens da Escola Normal Rural de Ayotzinapa, instituição de Ensino Superior da cidade de Tixtla, deslocava-se na estrada em três ônibus da empresa Costa Line, quando foi surpreendido por disparos dos uniformizados, de maneira intermitente e sem motivo aparente.

Dos seis mortos, três eram estudantes normalistas e outros três em nada se relacionavam com o grupo estudantil. Isso porque, na mesma ocasião, foi atacado outro ônibus, onde viajavam atletas do time de futebol da terceira divisão mexicana "Los Avispones”, no qual morreu o jogador David Josué Evangelista e o motorista Víctor Lugo Ortiz. No mesmo ataque, também foi atingida pelos disparos e morta Blanca Montiel Sánchez, que viajava em um táxi na mesma pista.


Vítimas foram surpreendidas enquanto se deslocavam em ônibus. Foto: Reprodução.

De acordo com o procurador geral de Justiça do Estado de Guerrero, Inãky Blanco Cabrera, dos 57 estudantes normalistas de Ayotzinapa inicialmente desaparecidos, 14 já foram localizados pelas autoridades estatais, seguindo ainda 43 deles sem paradeiro conhecido. Cabrera afirmou à imprensa que alguns dos jovens haviam fugido e se escondido para garantirem sua proteção, logo após os tiros do último dia 26 de setembro.

Até agora, 22 policiais (21 homens e uma mulher) são apontados como responsáveis pelas ações. Eles foram enviados à penitenciária de Las Cruces, em Acapulco, e deverão responder perante a Justiça por homicídio qualificado. Além disso, o procurador Cabrera aponta que, no caso, houve vários tipos de delitos e graves violações aos direitos humanos.


Protesto por justiça pela violência policial contra os estudantes

Em comunicado, o Governo do Estado de Guerrero, por meio da Secretaria de Segurança Pública e Proteção Civil, em parceria com o Exército mexicano, a Polícia Federal e a Procuradoria de Justiça do Estado, afirma que está tomando providências para garantir a segurança no município de Iguala. Para isso, forças estatais realizam operações conjuntas ampliadas e reforçadas com um helicóptero, que realiza sobrevoos de localização em Iguala e arredores. Além disso, tropas fazem buscas por terra e patrulhas de segurança. Estudantes da Normal Rural integram as equipes, auxiliando e oferecendo informação às autoridades para a busca dos jovens.

O prefeito do Município, José Luis Abarca, pediu licença de 30 dias do cargo enquanto ocorrem as investigações sobre o caso. O motivo seria manter a imparcialidade no levantamento de informações e interpretações sobre os crimes. No momento em que houve os disparos contra os estudantes, Abarca estaria com sua esposa em uma festa, negando qualquer ingerência sua nas ações.

Ataque gera protestos

Na última segunda-feira, 29 de setembro, dois dias após a tragédia, centenas de normalistas realizaram uma passeata pelas ruas de Chilpancingo de los Bravo, capital do Estado de Guerrero, para exigir justiça às vítimas fatais do ocorrido e empenho na busca dos estudantes que permanecem desaparecidos. O protesto culminou em um ato público no Parlamento Municipal, no qual foram quebradas vidraçarias da fachada do prédio, queimados documentos e pichadas paredes. Além disso, estudantes normalistas e professores da Coordenadoria Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE) ocuparam a estrada Oaxaca-México como forma de apoiarem os estudantes reprimidos e exigirem o esclarecimento do caso.


Familiares sepultam vítimas do atentado policial contra estudantes de Guerrero

Referência trágica

Os normalistas dirigiam-se à marcha comemorativa do massacre de 02 de outubro de 1968, mais conhecido como Massacre de Tlalelolco, quando o Exército abriu fogo contra uma multidão de estudantes em manifestação pacífica na Cidade do México, em protesto contra a política do então presidente da República, Gustavo Díaz Ordaz. Na ocasião, mais de 300 pessoas foram registradas como mortas, mas, até hoje, o verdadeiro número de vítimas permanece controverso. Há quem aponte cerca de 1 mil vítimas nesse ataque militar.


Marcela Belchior

É jornalista da Adital. Mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), estuda as relações culturais na América Latina.
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