Terça, 29 de julho de 2014
Artigos - Opinião
03.01.2013
[ Mundo ]
Férias: desespero do homem moderno
José Lisboa Moreira de Oliveira
Adital
A modernidade trouxe a cultura do trabalho. O ser humano passou a ser medido pela sua produção. Aquele que não produz é um inútil. E a produção é para o consumo. Produzimos para depois consumirmos avidamente e descontroladamente. Esta mentalidade está tão entranhada em nós que nos sentimos frustrados e inúteis se não estivermos fazendo alguma coisa.

Seguindo esta lógica irracional e desumana, os homens e as mulheres de hoje vivem sempre atarefados e sentem horror do tempo livre. Por isso quando têm uma folga ou saem de férias continuam trabalhando. E se não têm nada para fazer inventam alguma coisa. Precisam passar a imagem de que não são preguiçosos, mas gente que trabalha e produz. E esta lógica se tornou ainda mais perversa com a chegada do computador e da informática. Estes criam em nós a sensação de que o tempo encurtou e que já não conseguimos dar conta de nossas tarefas. Por essa razão é preciso levar trabalho para fazer em casa. Não bastam as horas passadas no local de trabalho. É preciso trabalhar nas horas de folga.

Assim, professores não descansam nos fins de semana e feriados. Aproveitam o tempo livre para corrigir trabalhos, elaborar provas e preparar aulas. Pais e mães de família chegam em casa cansados e, às vezes, nem tomam um banho e nem dão um cheiro no filho ou na filha. Vão direto para o computador e varam a madrugada. Jovens vivem plugados o tempo inteiro na internet. Os dedos agarrados aos teclados de suas máquinas transmitem ao cérebro a sensação de que estão ocupados. Mesmo que seja numa navegação entre baboseiras e idiotices. Ainda nos fins de semana os católicos e evangélicos são convocados por padres e pastores para trabalharem de graça para suas Igrejas. O descanso semanal, mesmo sendo eminentemente religioso e cristão, não é respeitado. Ao final do processo temos pessoas neuróticas, nevróticas, estressadas e irritadas. E todos saem perdendo com essa história.

Ora, tudo isso contradiz a experiência religiosa, particularmente aquela judaica e cristã. O Deus bíblico, considerado o criador de tudo, descansa tranquilamente ao final de seu longo trabalho (Gn 2,3). E, após seu descanso, não volta a trabalhar, mas se delicia em passear pelo seu jardim, curtindo a maravilhosa brisa da tarde (Gn 3,8). Este antropomorfismo, ou seja, esta projeção de imagens e de formas humanas de ver o divino, carrega em si um profundo ensinamento. Mostra, numa linguagem oriental semita o valor fundamental do descanso e do lazer. Numa perspectiva antropológica e da simbólica expressa algo essencial para a felicidade do ser humano.

Esta mesma perspectiva pode ser encontrada na práxis de Jesus. Embora fosse alguém preocupado em dar conta plenamente da missão que lhe fora confiada pelo Pai (Lc 12,50), Jesus não se subtraia aos momentos de lazer e de descanso. Gostava de uma boa festa, de tomar um bom vinho (Jo 2,1-10) e de uma boa comida (Mc 2,15). Sua inclinação por isso era tão forte que ganhou a fama de ser um "comilão e beberrão”, metido em festas e bebedeiras com gente de "má fama” (Mt 11,19). Quando sentia muito cansaço, sabia retirar-se e isolar-se para rezar, refletir, relaxar e recobrar as forças (Mc 1,35). Queria que os seus discípulos cuidassem bem destes momentos de descanso, de lazer e de silêncio (Mc 6,31-32). E quando estava descansando e conversando com o seu grupo não gostava de ser perturbado (Mc 9,30-31). Amava parar, "perder tempo”, para contemplar e admirar as coisas mais simples da vida, como as flores dos campos e as aves que passavam (Mt 6,25-30). Divertia-se acolhendo e brincando com as crianças (Mt 19,13-15).

Precisamos, pois, recuperar o significado humano do lazer e do descanso como momentos significativos para a nossa saúde física, psíquica e existencial. Mas para tanto é indispensável, antes de tudo, simplificarmos a nossa vida, reduzindo nosso consumo e reelaborando nossa ânsia de possuir e de ter coisas. De fato, essa obsessão por trabalho e produção está relacionada ao nosso desejo de ter mais dinheiro para mantermos um padrão de vida sofisticada. Aqueles e aquelas que ainda não atingiram certo patamar de consumo se matam de trabalhar para poder consumir. Por outro lado é indispensável que os empregadores, pessoas físicas ou empresas, também diminuam a voracidade pelo lucro e não matem seus funcionários de tanto trabalhar. Afinal de contas o que importa é o bem viver e isso o dinheiro e o consumo não conseguem nos dar de forma alguma.

Pelo contrário, uma vida mais simples, sem tantas coisas inúteis, é a maneira mais simples de viver bem, com saúde e tranquilidade. Um estilo de vida no qual haja tempo para se encontrar com o Transcendente, com a pessoa amada, com o amigo e a amiga, com o filho ou a filha. Um estilo de vida no qual possamos encontrar espaço para contemplar uma flor que desabrocha, sentindo seu precioso perfume. Uma vida na qual exista espaço para olhar e apreciar o horizonte, as curvas das montanhas, o azul celeste e, quiçá, uma noite escura repleta de estrelas ou até mesmo clareada pela lua. Uma vida onde haja tempo para sair do barulho da cidade para ouvir o canto dos pássaros, o cantar dos grilos e o barulho de uma cachoeira.

Infelizmente não conseguimos suportar tanta beleza e, por isso, mesmo quando viajamos para lugares silenciosos levamos conosco a confusão da cidade. Não suportamos o silêncio de uma mata, o cantar de um pássaro e o barulhinho da água que escorre mansinha pelo córrego. Temos que ligar os potentíssimos sistemas de som de nossos carros, pois o silêncio nos dá tédio e nos causa pânico. Por isso voltamos de nossos passeios ainda mais nervosos e violentos.

E tudo isso nos impede de gozar a vida no sentido pleno e verdadeiro da palavra. De fato, segundo a tradição judaico-cristã, gozar a vida faz parte do projeto do Criador: "Goza a vida com a esposa que você ama, durante todos os dias da vida fugaz que Deus lhe concede debaixo do sol [...]. Tudo que você puder fazer, faça-o enquanto tem forças, porque no mundo dos mortos, para onde você vai, não existe ação, nem pensamento, nem ciência, nem sabedoria” (Ecle 9,9-10). É hora, pois, de repensar nossa existência, refazer nossos projetos e estilos de vida, dando mais espaço para o descanso e o lazer, para gozar a vida e curti-la bem. Isso está nos planos Daquele que um dia nos criou para vivermos no "jardim de Éden” (Gn 2,15).

José Lisboa Moreira de Oliveira

Filósofo, teólogo, escritor, conferencista, gestor do Centro de Reflexão e Estudos sobre Ética e Antropologia da Religião (Crear) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor


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