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Artigos - Opinião
24.02.2012
‘A terra não suja as mãos’
Selvino Heck
Adital

Chego em Santo Cristo segunda de carnaval, a pequena cidade da região das Missões do Rio Grande do Sul fervilhando de gente nas ruas e nos salões, som altíssimo, alegria e festa. Dizem que é o maior e melhor carnaval missioneiro. Vou dormir na casa do deputado federal Elvino Bohn Gass, onde também estão Olívio Dutra e Judite.

Dia seguinte, de manhã cedo, antes do café, Erica, esposa do deputado, pergunta se dormimos bem e se escutamos a chuva que caiu de madrugada como uma bênção para a 35ª Romaria da Terra que vai realizar-se, como sempre na terça de carnaval, em Bom Princípio Baixo, interior do município, com o tema "Agricultura familiar camponesa: Vida com Saúde”. Erica comunica alegremente que caíram 8 mm da água tão esperada em tempos de seca.

Como escreveu D. José Clemente Weber, bispo de Santo Ângelo, da qual faz parte Santo Cristo, no jornal Missioneiro, "Romaria da Terra não é uma romaria qualquer. É um espaço de mística e política na busca de soluções para os conflitos e problemas da terra, bem como para os problemas de sobrevivência de outras categorias sociais. As Romarias dão força aos pequenos da terra, aos indígenas, aos sem terra, aos atingidos por barragens, aos assentados, aos negros, aos pequenos agricultores e outros”.

D. José Clemente dá notícia dos problemas principais da região: "Duas realidades preocupantes marcam a extensa região de Santo Cristo e municípios adjacentes: a agricultura familiar e as barragens do rio Uruguai. A agricultura familiar é importante, não só como forma digna de vida e sobrevivência, mas, sobretudo, pelo que a sociedade espera dela, a produção de alimentos sadios para a mesa de todos. As dificuldades são conhecidas e têm causado o longo êxodo rural, que ainda perdura. As famílias que desejam permanecer na terra precisam e merecem todo nosso apoio, bem como a subvenção do Estado, que já tem dado alguns sinais disso. O projeto das barragens apresenta principalmente dois problemas: a preservação do meio ambiente, vegetação e fauna, e o necessário deslocamento das muitas famílias que vivem às margens do rio. A exigência é que sejam tomadas todas as providências tanto para o cuidado da natureza como para a defesa dos direitos dos moradores ribeirinhos”.

A Romaria começa em Bom Princípio Alto, com uma caminhada dos milhares de romeiros e romeiras, muitos e muitas falando o alemão típico da região, até Bom Princípio Baixo. Ao longo de 2 kms, são feitas ‘paradas’ e há manifestações contra a privatização da água e o uso abusivo de agrotóxicos, e exigência de políticas públicas para a agricultura familiar camponesa.

O governador Tarso Genro caminha com o povo e senta-se no chão debaixo das árvores frondosas e sua sombra, em frente ao espaço onde acontecem a celebração e as manifestações culturais.

O pregador e orador principal é D. Guilherme Werlang, bispo de Ipameri, Goiás, e presidente da Comissão Episcopal de Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e a Paz da CNBB. D. Guilherme, em tom vibrante e forte, diz "esta terra tem dono”. E se diz agricultor de vida inteira, desses que nasceu agricultor e espera morrer agricultor. Denuncia as mazelas do capitalismo predador, que leva ao consumismo que faz mal à saúde, dos agrotóxicos que envenenam os alimentos. Propõe o uso de sementes crioulas. Apela às autoridades presentes para políticas públicas que fortaleçam a agricultura familiar camponesa. E diz: "Tem gente que, quando mexe na terra, diz que sujou as mãos. A terra não suja as mãos de ninguém porque ela é santa como Deus, afirma a Moisés (Êxodo 3, 5). A terra só será suja quando nós, seres humanos gananciosos, a sujarmos com veneno, agrotóxicos, plásticos, poluições das mais diversas. Nós, infelizmente, temos o poder de sujá-la, de prostituí-la e mesmo de matá-la”.

O governador Tarso Genro assumiu um compromisso: "Estarei na Romaria também nos próximos dois anos, como Olívio Dutra sempre fez. Pois somente juntos poderemos fazer um governo com aqueles que estão na base da pirâmide social”.

Como falou D. Guilherme em entrevista ao jornal Missioneiro: "Espero que esta Romaria seja um renovar de fé e esperança e um revigoramento nas lutas sociais. Que seja um ‘sangue novo’ a correr nas veias das igrejas diocesanas e renove seu profetismo e o anúncio firme e corajoso de que ‘esta terra tem dono’: os pobres da terra. Estes devem exigir respeito por parte de quem a expolia, a concentra e a profana visando prioritariamente o lucro e a produção para a exportação, deixando seus filhos e filhas passando fome, frio e tantos viverem em beiras de estradas, rodovias e embaixo de lonas pretas. Espero que esta Romaria permita às novas gerações sonharem com um futuro promissor. A palavra é: coragem, sonho, esperança. O mundo poderá ser o Paraíso sonhado por Deus no ato da criação”.

Amém, assim seja!

Em vinte e quatro de fevereiro de dois mil e doze.

Selvino Heck

Diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã e Secretaria Geral da Presidência da República. Membro da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política e Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO)

 

 

 

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