Sábado, 25 de outubro de 2014
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Artigos - Opinião
17.02.2012
Esquenta a política climática
CIP Américas
Adital

Por Kent Paterson
Tradução: ADITAL

A história não tem sido amável com os indígenas Rarámuri, do Estado nortenho mexicano de Chihuahua. Empurrados para as remotas montanhas de terra dura por espanhóis e colonos mestiços, os Rarámuri conseguiram aferrar-se à sua cultura enquanto lutavam por uma existência baseada na agricultura de secano e o pastoreio de rebanhos de pequeno porte. Em décadas recentes, suas terras foram invadidas de novo, dessa vez por pecuaristas, taladores, mineiros, produtores de drogas ilícitas, pela indústria do turismo e por soldados.

Segundo o analista mexicano e ativista camponês Víctor Quintana, das Nações Unidas, nomeou seis municípios com uma grande presença de Rarámuri dentro das 10 municipalidades indígenas menos desenvolvidas no México em 2005.

Ironicamente, Quintana escreveu em uma coluna recente, os Rarámuri sofrem escassez de água e mal nutrição enquanto que de sua Serra Tarahumara brotam as nascentes dos rios que alimentam a agricultura comercial, orientada à exportação dos "vales férteis” das zonas de baixo. "Riqueza e prosperidade na parte de baixo do rio; miséria onde nasce a água”, escreveu Quintana. "E os ricos cultivadores de Sinaloa, Sonora, Baja California e Chihuahua não pagam um só centavo pelos serviços ambientais aos povos indígenas das montanhas de Chihuahua”.

Em outro giro metafórico à crise Rarámuri, funcionários do Estado de Chihuahua estão considerando matar a milhares de javalis que regularmente cruzam a fronteira desde o Texas e devoram o pouco que resta de mata em uma terra faminta de chuva. A carne, elogiada como ‘saborosa’ e possuidora de baixo teor de gordura por parte de um oficial do Estado, seria enviada às comunidades indígenas famintas das montanhas.

Os Rarámuri, rapidamente, estão se convertendo em uma bola de futebol no marco político em uma aparente renhida luta política sobre mudança climática e política agrária; porém, também intimamente ligada ao livre comércio, soberania alimentar e consolidação corporativa no abastecimento de alimentos. Recentemente, os meios de comunicação mexicanos estiveram saturados com reportagens sobre seca e fome que destruíram a pátria desse povo conhecido por sua destreza em corridas de longa distância e apaixonados festejos durante a Páscoa.

Um relatório ainda não confirmado sobre um suicídio em massa de angustiados Rarámuri recebeu especial atenção. Representantes do Estado de Chihuahua refutaram o relatório e o chefe da Comissão Nacional da Água, José Luis Luege, que, recentemente, foi rejeitado em eleições primárias para Prefeito da Cidade do México pelo conservador Partido Acción Nacional, pôs seu pé na boca quando declarou que não havia problemas na Serra Tarahumara, já que os Rarámuri tiveram acesso a recursos aqüíferos alternativos.

Encarado pela realidade, Luege retratou-se em seguida. Na realidade, as secas têm sido um problema recorrente na Serra Tarahumara pelo menos desde os anos 90 e milhares de Rarámuri têm abandonado suas terras e migrado para Ciudad Juárez, para Cuidad Chihuahua e para outros refúgios urbanos. O grau em que os Rarámuri converteram-se em peões no presente jogo de xadrez sociopolítico foi simplesmente exibido no começo do mês, quando centenas de indígenas residentes da Serra Tarahumara foram transportados em massa para um evento onde estavam presentes o governador de Chihuahua, Cesar Duarte, e Enrique Peña, o candidato presidencial do Partido Revolucionário Institucional (PRI).

Apesar de que os organizadores do evento declararam que sua intenção foi familiarizar aos líderes nacionais com o sofrimento dos Rarámuri, indígenas que estiveram na reunião foram citados pela revista semanal Proceso dizendo que eles não tinha nenhuma ideia do porquê haviam sido levados ao tal evento. "Eles não explicaram nada”, disse Rarámuri Francisco Mariano Gonzáles. "Eles poderiam ter-nos trazido para escutar suas palestras”, especulou Gonzáles.

Aparentemente, o homem encarregado do ‘carreto’, palavra usada no México para descrever o transporte de pessoas a um evento de campanha política para aparentar uma presença multitudinária, era o ex prefeito de Gaudalupe y Calvo, um violento e destroçado povoado localizado no coração da região narco da Serra Tarahumara.

Aparentemente, o tempo que o ex-prefeito passou ocupando essa posição no governo foi boa prática para sua carreira como ator de cinema de categoria B sobre tráfico de drogas, como "Chumbo na Serra”.

Indígenas pagam o preço da mudança climática

Apesar de seus elementos espetaculares e, inclusive, surrealistas, o episódio Rarámuri foi o último capítulo de uma profunda crise rural agravada pela mudança climática e pelas políticas econômicas neoliberais.

De acordo com informação de funcionários do governo, investigadores acadêmicos e organizações agrícolas citadas nos meios de comunicação, uma tríplice praga de inundações, secas e geadas golpearam quase 70% dos 26 milhões de hectares cultiváveis do país, em 2011. Enquanto a seca foi parcialmente grave nos Estados do norte, a falta de chuvas também está criando situações de emergência para os produtores em lugares como Jalisco e Aguascalientes.

A Secretaria Federal de Agricultura, Pecuária e Pesca (Sagarpa, por sua sigla em espanhol) reconhece que 19 Estados mexicanos estão atingidos pela pior seca em 70 anos.

Segundo vários relatórios, em âmbito nacional, mais de meio milhão de reses morreram e alguns poços secaram. De acordo com La Jornada, em 2011, estimou-se que 20% do vital cultivo de milho decaiu como resultado das adversas condições climáticas. A produção de outro alimento básico –o feijão- também decresceu.

Desastres climáticos contribuíram para elevar os preços dos alimentos em todo o país. A vendedora de ‘tamales’ (comida típica feita com milho) de Puerto Vallarta, Estela Fernández, disse que esse ano o quilo de farinha de milho está dois pesos mais caro do que no ano passado. Quanto à seca, Estela disse que ainda não foi afetada. "Agora, há mais oferta de farinha de milho... Não sei como ficará mais adiante”.

Max Correa, Secretário Geral da Central Campesina Cardenista, disse a La Jornada que aumentos de preços dos produtos agrícolas poderiam oscilar entre 100 e 150% este ano.

Tanto agricultores quanto consumidores estão sentindo a dor causada pelos aumentos de preços. Uma onde de aumentos nos preços dos ovos, do feijão e dos tomates, bem como na gasolina e dos pedágios na autopista necessários para obter os produtos no mercado, esbofeteou os mexicanos no final de 2011 e início de 2012.

Talvez o aumento mais difícil foi no preço das ‘tortillas’ de milho, que aumentou ao redor de 6 pesos por quilo no final de 2006 e mais de 12 pesos em muitas cidades pesquisadas pelo Ministério da Economia no final do ano passado. Durante o mesmo período, o salário mínimo aumentou de 48,67 pesos para 59,82 pesos; a capacidade de um salário mínimo diário para comprar tortillas caiu de 8,1 quilos, em 2006, para 5,3 quilos, em 2011.

Para compensar a queda da produção de milho, o México está importando o produto, especialmente dos Estados Unidos. As importações de milho cresceram 69,6% desde janeiro até setembro de 2011, custando ao México uns 2,1 bilhões de dólares, uma quantia consideravelmente alta se for comparada com o 1,2 bilhão de dólares em importações durante o mesmo período, em 2010.

A experiência do México é similar a de muitas outras nações em desenvolvimento, segundo um novo relatório do Instituto para a Agricultura e Política Comercial e do Instituto do Ambiente e Desenvolvimento Global.

O relatório culpou à especulação de produtos básicos, a produção de biocombustíveis e a "usurpação de terras” pelos grandes aumentos nos preços mundiais de alimentos entre 2007 e 2008 e também de 2010 a 2011. Os governos têm tomado medidas positivas para enfrentar a crise, porém, não há promessas de implementar reformas estruturais reais para evitar "outro devastador aumento nos preços mundiais de alimentos”, concluíram os autores do relatório.

Nem todo o mundo está perdendo com o ciclo de incremento de preços. O aumento está conectado às questões ambientais; porém, está também fortemente influenciado pelas operações de capital financeiro, pela hegemonia do livre comércio e pela dominação corporativa da cadeia alimentar.

Os exportadores estrangeiros de alimentos, grandes processadores de alimentos nacionais e cadeias de supermercados multinacionais e nacionais obtêm lucros em cima das perdas do setor de autossuficiência alimentar. Grandes lojas como Wal-Mart vendem tortillas a um preço menor do que as pequenas lojas tradicionalmente mais freqüentadas pelos mexicanos. Por exemplo, as tortillas vendidas pela gigante loja americana em um de seus locais em Puerto Vallarta custam 9,90 o quilo, comparado com os 14-15 pesos o quilo cobrado pelas pequenas lojas. Outra cadeia, a OXXO, em rápida expansão, agora vende pacotes de 250 gramas de tortillas por 10,50 pesos.

A crise alimentar no México ainda tem que adquirir o status de um serio e importante problema nacional; porém, diferentes forças estão começando a colocar o tema no centro do cenário da vida política nacional.

Esse, provavelmente, pode ser o maior protesto desde 2008; as organizações agrícolas do México planejam reunir-se na capital durante os últimos dias de janeiro para exigir mais ajuda ao governo. "Esse é o primeiro movimento social que o país vê com muita urgência devido à mudança climática”, escreveu o analista Víctor Quintana. "Muitos mais se levantarão e com mais força se o governo continuar sem entender o que está acontecendo”.

O veto do Presidente Calderón no mês passado a um pacote de assistência adicional para os agricultores mexicanos, avaliado em 900 milhões de dólares, e aprovado pela oposição que controla a câmara baixa do Congresso mexicano foi alvo de grandes protestos. Em uma ano eleitoral, como 2012, a questão de quem tem o controle sobre o gasto do governo é um assunto muito delicado à medida que distintas forças políticas sempre suspeitam que seus rivais utilizarão seus escritórios e orçamentos para influenciar eleitores.

A batalha interna contrasta com o apoio dado à administração de Calderón com fundos adicionais por aprte das Nações desenvolvidas para o Fundo Climático Verde. E como novo presidente do G-20 das Nações Unidas, é provável que México faça lobby por mais ajuda para esse Fundo junto aos membros mais ricos do grupo. A administração Calderón considera que o México está na vanguarda do "crescimento verde”.

Enquanto que as considerações políticas inevitavelmente rodeiam o debate sobre política climática interna, poder-se-ia dizer que os funcionários mexicanos pelo menos aceitam o consenso científico da mudança climática, diferente dos Estados Unidos, onde o que se debate é ainda um salpicado de negação, torpeza e evasão.

Em casa, a administração de Calderón está defendendo agressivamente suas ações domésticas referentes à mudança climática. "Falar sobre os efeitos da seca é uma prioridade para a administração do presidente Felipe Calderón, porque atinge a boa parte da população, em particular, os mexicanos mais vulneráveis”, disse o Secretário de Sagarpa, Francisco Mayorga.

Como evidencia a atenção do Governo Federal, Sagarpa disse que haviam orçamentos ao redor de 1,3 milhão de dólares para programas de mitigação e prevenção, em 2012. Entre as medidas em marcha ou em obras para os próximos dias, estão a substituição de cultivos, coleta de água, recultivo de pastos, gestão sustentável e emprego temporário. Também o governo planeja gastar cerca de 90 milhões de dólares em seguro contra as catástrofes, sejam "fenômenos climáticos e/ou naturais”.

Se as políticas do governo para o resgate rural podem, inclusive, sentar as bases para a transformação do campo, isso é outro assunto. Sob as atuais regras do jogo econômico, a economia agrícola do México se rege por Acordos de Livre Comércio, especialmente pelo Tlcan, tanto os comerciantes intermediários quanto as grandes corporações controlam o transporte e a comercialização de produtos do campo á cidade.

No campo, as grandes associações de agricultores com conexões políticas estão preparadas como sempre para beneficiar-se de qualquer outra injeção de ajuda do governo. Grandes extensões de terras irrigadas e pastos estão dedicadas a abastecer o mercado estadunidense. Somente no último mês de novembro/11, 189.000 cabeças de gado foram enviadas ao norte através da fronteira, de acordo com a publicação da indústria da carne de gado vacuno, Red Arrieros de Ganado. O pacote de socorro rural do governo não vai alterar ou modificar nenhum desses rentáveis, porém, cada vez mais ecologicamente prejudiciais mecanismos econômicos.

Ainda é muito cedo para dizer se o novo movimento de protesto camponês semeou uma semente para um modelo agrícola do século XXI baseado em uma reforma do mercado interno, renegociação de comércio e práticas agrícolas sustentáveis.

Muitas organizações que participaram no protesto de 31 de janeiro estão conectadas aos partidos políticos e, se os organizadores assumem uma clara postura de independência, é provável que suas demandas sejam canalizadas para as ânforas das urnas.

Antigos movimentos de protesto nacional (2003 e 2008) resultaram em subsídios do governo, empréstimos e em outras formas de ajuda em curto prazo para um setor rural em decadência; porém, não assentaram as bases para uma economia rural realmente saudável.

Por seu lado, as organizações agrícolas basicamente retiraram-se do protesto público. As demandas para a renegociação do Tlcan caíram no esgoto e um número crescente de agricultores simplesmente se retiraram da economia legal para cultivar amapolas e maconha,como uma forma de permanecer na terra. Porém, com a mudança climática, que está se convertendo em um fator cada vez mais significativo na política rural mexicana, as contradições de ajustes temporários, politicamente negociados, seja na região dos Rarámuri ou em outros lugares, estão tornando-se cada vez mais agudas.

[Kent Paterson é jornalista independente que cobre o sudeste dos Estados Unidos, o México e a América Latina; é analista de Programa de las Américas.]

CIP Américas

Com mais de 30 anos de experiência com as notícias e análises da América Latina, o Programa das Américas do Centro para a Política Internacional é a principal fonte de informação para os ativistas, acadêmicos e cidadãos preocupados com a política exterior dos EUA para a América Latina e os movimentos pela justiça social no hemisfério


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