Segunda, 22 de dezembro de 2014
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Artigos - Opinião
04.11.2010
Romaria dos Mártires em Carmo do Rio Verde: Nativo Vive!
Zé Vicente
Adital

Já era mais de 19h00min horas do dia 22 de outubro, mas o sol, no horário de verão ainda piscava pra lua cheia que despontava graciosa sobre a cidade de Carmo do Rio Verde, em Goiás.

No pátio do Cemitério, uma celebração diferente, coordenada pelo Pe. Welligton e equipe, reunindo numa grande roda mais de 120 pessoas, entre parentes muito próximos, companheiros e amigos de Nativo da Natividade, então Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, morto a tiros, no dia 23 de outubro de 1985.

Após a saudação do espaço e das pessoas presentes, algumas levando flores, velas, sementes, a bíblia sagrada, cruz... Ouvimos testemunhos serenos, emocionados e marcantes, do filho Eduardo, da esposa Maria de Fátima, de irmãos, companheiros do Sindicato.

- "O Nativo, desde criança, lá na roça, era um menino muito inquieto. Nossa mãe sempre se preocupava com ele, dizendo que ele era revoltado com as coisas erradas...”, diz um dos irmãos, com emoção.

- "ele era amigo da gente, tratava a gente com atenção, encorajava.Tinha coisas boas, reuniões... sinto saudades, saudades daquele tempo” – murmurou uma senhora cabocla, num recanto da grande roda, entre soluços.

- "entre tantas viagens, ele sempre chegava,dando atenção pra nós, os filhos,cumprindo as obrigações da família. Eu não pude compreender direito aqueles acontecidos, tinha só 10 anos, quando mataram meu pai. Hoje vejo mais claro a importância dele na vida da gente”, fala Eduardo, o filho,que nos marcou a todos, pela serenidade e consciência de justiça, que transmitiu em todos os momentos dos quais participou.

Vários companheiros, lideranças sindicais, chamaram a atenção para as conquistas conseguidas, frutos das lutas daquele período em que Nativo empunhou bandeiras tão urgentes – direitos dos trabalhadores nos canaviais da região, reforma agrária, denuncia contra o avanço da destruição da natureza,redemocratização do Brasil, que ainda vivia sob o regime da ditadura militar que dominou o país de 1964 a 1985. Trouxeram também a lembrança, de outros mártires da mesma causa e do mesmo período, em Goiás: Sebastião Rosa da Paz, Vilmar etc.

Com o brilho da lua e de algumas velas, foi proclamado o Evangelho, seguido de uma caminhada em silêncio até o túmulo de nosso mártir-herói, Nativo, onde foi descerrada uma placa comemorativa pelos 25 anos de memória do seu assassinato. Com os cantos "Prova de amor maior não há...” e "Vitória, tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás”, foi encerrada a primeira celebração da IV Romaria dos Mártires da Diocese de Goiás.

O DIA 23, ROMARIA EM CLIMA DE CHUVA E MUITA FÉ...

Logo cedo, dia nublado, com algumas pancadas de chuvas,uma nova celebração, na Igreja Matriz de N. Sra. do Carmo, que esteve quase cheia de gente. Também num clima orante e testemunhal.

Ali, o destaque mais simbólico foi o anúncio do nascimento da netinha de Nativo e Fátima, nessa véspera do jubileu pascal do avô. O aplauso da Assembleia confirma a importância sagrada da bandeira maior a ser empunhada, sempre, por todos nós: a VIDA!

Ali, pude cantar em coro com tantos parentes da caminhada o canto que compus naqueles dias,de tantas lutas e cantares:

"Venham todos, cantemos um canto que nasce da terra,canto novo,de paz e esperança em tempos de guerra... Lavradores,Raimundo,José,Margarida, Nativo...assumir sua luta e seu sonho por nós é preciso!”

O período da tarde foi marcado pela realização do DNJ –Dia Nacional da Juventude-, que reuniu algumas centenas de jovens num só grito conta a violência e o extermínio de jovens. Os participantes realizam uma passeata até a praça central, de onde partiu a grande caminhada até a frente do Sindicato onde Nativo foi executado.Com três paradas,quando eram erguidos estandartes com rostos de vários irmãos e irmãs mortos pela violência daqueles que se acham donos da terra e da vida de pessoas.Foi emocionante a parada anterior a proclamação, por um jovem ator, do texto do Apocalipse,quando foram lidos resumos das histórias das pessoas martirizadas e aclamados seus nomes e suas presenças vivas entre nós.Repetimos, várias vezes, o refrão: "Vidas pela Vida,vidas pelo Reino!”.

Cerca de 10 mil pessoas, entre os (as) caminhantes e quem acompanhava de suas casas, participaram da celebração final presidida pelo bispo de Goiás, D. Eugênio, concelebrada por D. Messias, bispo de Uruaçu e D. Tomaz Balduíno, bispo emérito que, com mais de 80 anos, fez todo o trajeto da caminhada a pé e ainda teve fôlego para proferir uma homília vibrante. O ofertório foi aberto pela entrega do lenço ensanguentado de Nativo, pela esposa e o filho, a Dom Eugênio, que prometeu que será posto em lugar de destaque na sede da diocese.

Após a missa, eu, juntamente com a cantora Eliane Brasileiro e o músico Heriberto Silva, convidados para a Romaria, animamos aquele momento de cantos, danças e partilha de alimentos preparados para a festa da comunhão.

A certeza de que o sonho bom e teimoso, que moveu a entrega da vida de Nativo da Natividade e de tantas outras pessoas no decorrer de nossa história, é que revela o sentido profundo do seu sangue sobre o chão,apontando-nos o rumo da caminhada para a conquista da terra livre e da reforma agrária verdadeira, da justiça aos mandantes e criminosos impunes, do fortalecimento da fé e da coragem da gente, da chama da profecia a ser mantida sempre acesa nas comunidades e em quem assume a missão de pastores, líderes da classe trabalhadora e governantes de nossa nação brasileira.

Viva Nativo Vivo!

Fortaleza, 03 de novembro de 2010.

Zé Vicente

Poeta e cantor
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