Sábado, 20 de dezembro de 2014
Novo Doe
Artigos - Opinião
08.09.2010
[ Mundo ]
A missão de Jonas: além do nacionalismo
Rafael López Villaseñor
Adital

Contexto do livro de Jonas
O livro de Jonas é colocado nos escritos proféticos porque em 2 Reis 14,25 se encontra um profeta com o mesmo nome. Segundo esse relato, Jonas era filho de Amiti e um nativo de Gat-Hofer, vilarejo situado a 5 km, em direção ao nordeste de Nazaré. De acordo com esta noticia, podemos ver que um profeta com o mesmo nome viveu no tempo de Jeroboão II (783-743 AC), época do império Assírio que tinha como capital Nínive. Porém, segundo os estudiosos, o livro de Jonas não é desta época.

Analisando o livro de perto, logo percebemos que a data é bem posterior aos profetas, com um estilo diferente dos livros proféticos, que em geral são escritos em verso. O profetismo traz julgamentos para as nações estrangeiras e pagãs; porém o texto de Jonas relata a conversão dos estrangeiros de Nínive. Anuncia a misericórdia de Deus para um dos povos mais odiados de Israel. O livro não diz os pecados da cidade de Nínive, o que leva a concluir que o texto não é um escrito propriamente profético. Na verdade se trata de um livro sapiencial.

Os estudiosos afirmam que o livro foi escrito depois do exílio da Babilônia, que terminou em 538 e antes de 200 a C. Nestes 300 anos, o povo de Israel foi dominado por grandes potências como o império persa e o império grego de Alexandre. A época do pós-exílio é caracterizada por não haver mais profetas (Sl 74,9). O livro de Jonas embora não sendo profético, procura mostrar que todos precisam ser profetas e denuncia o nacionalismo judaico. O texto mexe com questões profundas como a concepção de Deus. A teologia do livro está na contramão da teologia oficial, que afirmava que somente o povo judeu era o povo eleito. O escrito surge como resposta aos conflitos causados pela teologia racial e nacionalista em Jerusalém pós-exílio.

Não sabemos realmente quem foi o autor, ou os autores. O texto ironiza o comportamento dos judeus nacionalistas e tem um olhar favorável aos estrangeiros. Jonas representa o grupo nacionalista que não aceita que Deus seja misericordioso com os povos estrangeiros. Tem um gênero com elementos de novela (narrativa), de parábola (comparação), de sátira (irônica) e de misdrash (narrativa oral). O texto critica fortemente a mentalidade daqueles que queriam Deus só para os Judeus. Na história de Jonas, os estrangeiros se converteram diante da pregação e Deus os acolheu na sua bondade e não destruiu a cidade de Nínive. É uma história bem desenvolvida e planejada em Deus atua em duas cenas paralelas: personagens estrangeiros e elementos da natureza.

O livro de Jonas traz como tema central a preocupação com os estrangeiros e gentios. Também Elias foi mandado para Sarepta para morar lá durante uma temporada (1Rs 17,8-10), e Eliseu viajou a Damasco (2Rs 8,7). Porém, somente a Jonas é dada a missão de levar a mensagem de arrependimento e misericórdia, para ser pregada diretamente a uma cidade estrangeira e gentia. Sua relutância em ir pregar até Nínive estava baseada num desejo de ver seu declínio culminar numa completa perda de poder. Também ele temia que Deus pudesse mostrar misericórdia, deste modo oferecendo aos Assírios a oportunidade de atacar Israel.

O nome é sugestivo: Jonas significa “pomba filha da verdade” ou “pombo”. Quanto ao caráter, ele é representado como obstinado, irritado, mal-humorado, fechado, impaciente e por seu hábito de viver somente com seu clã. Politicamente, é obvio que ele representa o grupo que era amante leal de Israel e patriota comprometido. Religiosamente, ele professava um temor ao Senhor como Deus do céu, o Criador do mar e da terra. Profeta infiel. Mas sua primeira desobediência intencional, sua postura relutante à obediência e a sua ira sobre a extensão de misericórdia aos habitantes de Nínive revelam óbvias incoerências na aplicação da sua fé. A história termina sem indicar como Jonas respondeu à exortação e à lição objetiva de Deus.

Comentários aos textos

1,1-3 Deus manda Jonas para Nínive Jonas representa o grupo nacionalista que estava consciente da destruição de Nínive, e lembrava a destruição que os Assírios haviam feito em Israel através dos anos. Ele achou difícil aceitar o fato de que Deus pudesse oferecer misericórdia a Nínive da Assíria, uma vez que seus habitantes mereciam um julgamento severo. Deus pediu a Jonas, o profeta, para levantar-se e ir 1300 km pra o oriente, a Nínive, uma cidade dos temidos e odiados Assírios. Sua mensagem é para ser um chamado ao arrependimento e uma promessa de misericórdia, caso eles respondam positivamente. Jonas sabe que, se Deus poupar Nínive, então aquela cidade estará livre para saquear e roubar Israel novamente. Esse patriotismo nacionalista e seu desdém a que a misericórdia seja oferecida para pessoas que não fazem parte do concerto induzem Jonas a decidir deixar Israel e “fugir de diante da face do Senhor” (1,3). Sem dúvida, ele esperava que o Espírito da profecia não o seguisse. Jonas está descontente e algum modo se convence de que uma viagem a Társis irá livrá-lo da responsabilidade que Deus colocou sobre ele. Társis era longe, considerada como fim do mundo (Is 66,19). Ele toma um caminho oposto ao ordenado por Javé.

• Por que Jonas foi enviado a Nínive?
• Por que Jonas quer fugir para longe da face de Javé?
• É possível fugir da presença de Deus?

1,4-9 O Senhor manda uma tempestade. A viagem a Társis logo fornece a evidência de que a presença e a influência do Senhor não são restritas a Israel. Aparecem marinheiros estrangeiros. A fuga de Jonas provoca a ira de Deus, manda uma tempestade para golpear o navio e causar circunstâncias que conduzem Jonas face a face ao seu chamado missionário (1,4). Jonas para fugir da realidade e do perigo dorme um sono profundo; desse jeito quer ficar inconsciente e alienado da missão universal que recebe de Deus.

• Qual é a reação de Jonas diante da realidade da tempestade?
• Qual é nossa realidade diante das tempestades e problemas da vida?

1,10-16 Os marinheiros jogam no mar Jonas. Após determinarem que Jonas e seu Deus são responsáveis pela tempestade, e após esgotarem todas as alternativas, os marinheiros atiraram Jonas ao mar (1,12). Sem dúvida, Jonas e os marinheiros acharam que esse seria o fim dele. Para Jonas morrer é o caminho mais fácil para não ir a Nínive! Jonas personifica o povo encarregado de anunciar o projeto de Deus, os marinheiros personificam as nações estrangeiras, cada um com seu Deus e seu projeto. A causa da tempestade e da catástrofe iminente é o fato de Jonas recusar a missão. Por bem, ou por mal o povo de Deus deve aceitar a missão profética e universal, se resiste terá que pagar muito caro.

• Qual é atitude dos marinheiros e de Jonas durante a tempestade?
• Qual é o sentido do texto para nossa realidade de hoje?

2,1-11 Não é possível fugir da missão universal de Deus! Jonas quer fugir de Deus, mas não morre no mar, é engolido por um grande peixe enviado por Deus, que após três dias e três noites o jogou em terra firme. Que ironia! Nem o peixe aguentou Jonas. Foi-lhe indigesto. O texto não é uma narrativa histórica, mas de uma parábola ou metáfora didática com sentido simbólico. Na oração, Jonas reconhece a grandeza de Deus de quem vem a salvação. Os evangelhos retomam este texto de maneira positiva, para figurar a sepultura de Jesus antes da ressurreição, como sinal e modelo de conversão (Mt 12, 39-41; 16,4; Mc 8,12; Lc 11,29-30).

• Qual é a experiência vivida por Jonas?
• Qual é a imagem de Deus que aparece na oração de Jonas?
• Com é feita nossa oração para com Deus?

3,1-10 Nova ordem de Deus. Novamente, Deus manda Jonas levantar e ir a Nínive para entregar a mensagem de libertação, capital do Império Assírio, símbolo da opressão e da violência. A cidade de Nínive do livro de Jonas é fictícia. Quando o texto foi escrito, Nínive não existia havia mais de dois séculos, mas permanecia como símbolo do poder opressor. Jonas com sua visão para com os estrangeiros, sua pregação, só apresenta ameaças e reluta em anuncia a mensagem de Deus para a cidade. Para seu espanto, os habitantes de Nínive, desde a pessoa mais humilde até o rei, se arrependeram e mostraram isso através do jejum cerimonial, vestindo-se de panos de saco e assentando-se sobre a cinza durante quarenta dias. Até mesmo os animais são obrigados a participar dessa conduta humilde. Era costume persa incluir os animais nos rituais de penitência (3,7-8). Jejum e arrependimento não são garantia de perdão para os Assírios. Porém, Deus demonstra piedade para com os estrangeiros de Nínive e desiste do castigo que pretendia aplicar.

• Qual é atitude dos habitantes de Nínive diante do anúncio de Jonas?
• Qual é a imagem de Deus que aparece no texto?
• Qual é a realidade opressora e de violência hoje para quem mora na grande cidade?

4,1-4 Desgosto de Jonas A conversão dos habitantes de Nínive faz Deus voltar atrás e não destruir a cidade. Jonas ficou muito desgostoso e irado. O coração de Jonas não está mudado, e ele reage com ira e confusão. Por que Deus teria misericórdia de pessoas que abusaram da nação de Israel? Talvez esperando que o arrependimento não tivesse sido genuíno, ou que Deus fosse escolher outra estratégia. Jonas constrói um abrigo numa colina, com vista para a cidade do lado oriente. Lá, Ele aguarda o dia indicado para o julgamento. Nínive se converte, mas Jonas que representa os grupos nacionalistas, não se converte e não aceita um Deus misericordioso com o estrangeiro! O perdão e a misericórdia são universais, até para os piores inimigos do povo de Deus. O amor de Deus não tem fronteiras! Apesar da incompreensão e da teimosia de Jonas, Deus não o abandona. Ao contrário, vai ao seu encontro com um projeto de misericórdia e solidariedade.

• Por que Jonas ficou com raiva de Deus?
• Por que Jonas não aceitou que Deus fosse misericordioso com os habitantes de Nínive?
• Por que muitas vezes queremos um Deus à nossa imagem e semelhança?

4,5-11 Situação desconfortável de Jonas Deus não discute com Jonas, mas age. Usa o tempo e esperar para ensinar uma valiosa lição. Providencia uma mamoneira para crescer durante a noite, num lugar que fizesse sombra sobre a cabeça dele. Jonas se regozija na sua boa sorte. Então, Deus providencia um bicho pra comer o caule da mamoneira e a faz secar (4,5-7). Ele, mais adiante, intensifica a situação desconfortável de Jonas, ao trazer um vento abrasador, vindo do oriente, para secar o corpo morto de sede de Jonas. Ele lamenta a morte da mamoneira e expressa seu descontentamento a Deus. Deus lhe responde mostrando a incoerência de estar preocupado com uma mamoneira, mas estar totalmente despreocupado com o destino dos habitantes de Nínive, a quem Deus amava (4,8-11).

• Qual é o jeito que aparece no texto de Deus agir?
• Qual é a imagem que temos de Deus?

BIBLIOGRAFIA
BALANCIN, Euclides & STORNIOLO, Ivo. Como ler o livro de Jonas: Deus na conhece fronteiras. São Paulo: Paulus 1994.
BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral, São Paulo: Paulus, 2004.
CENTRO BÍBLICO VERBO, Levanta-te e vai a grande cidade: entendendo o livro de Jonas. São Paulo: Paulo 2010.

Rafael López Villaseñor

Missionário Xaveriano. Pároco
Link permanente:
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte e enviar cópia para:
Caixa Postal 131 - CEP 60.001-970 - Fortaleza - Ceará - Brasil
Início
Adital na Rede
Notícias mais lidas (nos últimos 7 dias)
  1 2 3 4 5