Quinta, 24 de abril de 2014
Artigos - Opinião
25.03.2010
Agricultura familiar, diversificação da produção, e os quintais agroecológicos: uma experiência
Aguinel Lourenço da Fonseca Filho e Fábio José da Silva
Adital

Organograma da valorização das técnicas e saberes populares, da re (construção) à irradiação de novos conhecimentos na agricultura familiar.

Modelo de agricultura pautado na destruição do cerrado
 
O modelo agrícola da Revolução Verde implementado nas últimas décadas, produziu no cerrado, danos ambientais e destruição dos recursos de diversas ordens. Esse sistema de produção monoculturistas, excludente, de uso intensivo de agrotóxico, de tentativa de monopólio das sementes é capitaneado pelas multinacionais e pelos latifundiários (agora com nova roupagem), provocou um grande êxodo rural, e encurralou os agricultores familiares. E ainda, fez aumentar as desigualdades sociais e a exploração do trabalho. Nos últimos anos, o estado goiano tem figurado, no caderno de conflitos da CPT e na imprensa, nas primeiras colocações do país na libertação de trabalho escravo.

Para isso, o Estado brasileiro colocou toda a estrutura necessária para viabilizar esse novo jeito de agricultura., assistência técnica pública, linhas de créditos especiais, meios de comunicação, universidades e escolas técnicas formadoras de agrônomos e técnicos agrícolas com esse perfil. Por outro lado, os camponeses foram sendo formados e/ou induzidos a adotarem as metodologias e insumos desse modelo. O modo de vida e de produzir dos camponeses foram considerados formas arcaicas e atrasadas. Para completar, em Goiás, a agricultura familiar enfrenta dificuldades de um processo histórico de configuração do espaço agrário sob domínio da grande propriedade; normalmente associando-a como unidades de baixa produção, precário desenvolvimento tecnológico e fraca capacidade de geração de renda.

Modelo de desenvolvimento pautado na diversidade e numa melhor convivência com o cerrado

É urgente, é necessário a defesa e viabilização no conjunto da sociedade de alternativa sustentável de desenvolvimento, que poupe os recursos naturais, não polua a o meio ambiente, e que possa de forma efetiva, afetiva ter uma melhor convivência com é esse nosso meio E ao mesmo tempo, no âmbito da agricultura, há um clamor dos camponeses contra toda essa forma de destruição desencadeada pelo agronegócio. Os camponeses têm resistido contra essas investidas do capital, cobram mais apoio para agricultura familiar, e em muitos lugares, constroem iniciativas que geram vida

Agricultura Familiar: estratégia de desenvolvimento econômico-socio-cultural

É preciso e necessário realizar o caminho de volta ao campo e valorizar o papel dos agricultores familiares locais para que não sejam meros fornecedores para a indústria leiteira ou outras, produzir, diversificar, beneficiar e comercializar sua produção é fundamental, possibilitar que o seu espaço seja um lugar de vida. È imprescindível valorizar o grande conhecimento acumulado por nossos camponeses. Preservar e multiplicar as sementes, cuidar da saúde com as plantas, intensificar atividades comunitárias, praticar e difundir a agroecologia, resgatar e valorizar elementos da cultura camponesa.

A transição para agroecologia tem sido uma alternativa viável para os camponeses. A quantidade de experiências já vividas neste país, sem apoio nenhuma de políticas públicas, mostra que os resultados são bons, o sistema é competitivo com baixos custos ambientais e econômicos.

Portanto, se torna necessário compreendermos, discutirmos e difundirmos essa dinâmica da agroecologia, considerando experiências concretas, a luta por acesso a aterra, correto manejo e conservação dos recursos, as questões de pesquisa e conhecimento, mudança de mentalidade, e ainda aspecto econômico, perspectiva político-organizativa e lutar por políticas públicas.

Em resumo, a agroecologia é uma forma de produção, onde sua prática obedece a diversidade e princípios adequados à manutenção da relação solo/planta num equilíbrio de sanidade, recusando pesticidas e adubos químicos. A agroecologia visa responder às necessidades de produção/alimentos e geração de renda para o agricultor.

Iniciativas concretas de defesa e convivência sustentável com o Cerrado, no âmbito da agricultura familiar

A CPT Goiás realizou em sua XX Assembléia Regional, o lançamento de uma campanha pela diversificação da produção de alimentos e em defesa do cerrado. Esta que objetiva a valorização e incentiva a agricultura familiar e camponesa, bem como novo modo de relacionamento homem/mulher e o Cerrado.

São elementos constitutivos dessa campanha permanente: implantações de quintais agroecológicos, plantas medicinais, recuperação de nascentes de água e matas ciliares, defesa da PEC 115-150/95 (PEC do Cerrado e da Caatinga), preservação e difusão das sementes crioulas, realização anualmente de uma Escola de agroecologia.

A campanha prevê ainda a elaboração de materiais midiáticos: Cartazes, folders, cartilhas, spots para rádios, a fim de atingir maior número possíveis de pessoas.

A CPT quer chamar a atenção dos camponeses e também das autoridades para a necessidade da produção de alimentos diversificados, saudáveis e com respeito a mãe terra e aos que nela vivem.

É bom ressaltar que no conjunto das atividades, a CPT Goiás já vinha desenvolvendo algumas ações dessa natureza. A sistematização e o lançamento dessa campanha em 2009 aconteceu de forma a ampliar a discussão e difusão no estado dessa temática. Repercussão esta, que por decisão dos movimentos que compõe a Via Campesina em Goiás, todos escolheram os quintais agroecológicos e as sementes crioulas, para dar a unidade no conjunto do projeto, que está sendo elaborado e renovado. A Entraide et Fraternité (Bélgica) já apóia financeiramente em Goiás esses movimentos, dentro do eixo soberania alimentar, onde a CPT Goiás faz a gestão financeiro-contábil, e ajuda na discussão política desse projeto. Esse projeto é trienal e termina sua primeira edição no início do próximo ano.

Mesmo sabendo, que são várias as ações e frentes nessa campanha, optamos por apresentar a experiência dos quintais agroecológicos.

Quintais Agroecológicos: um pequeno mundo, onde se produz conhecimentos e alimentos

1 – Concepção/entendimento:

O desejo e a necessidade dos agricultores/as familiares em construírem uma vida digna no campo, passam por um modelo de produção que seja sustentável ecologicamente e economicamente.

Neste sentido, os quintais agroecológicos têm se tornado um espaço de reflexão e redefinição do modelo de se produzir alimentos. A integração e inter-relação de diversas culturas e animais em uma área reduzida têm se mostrado como uma forte alternativa no sentido de diversificar a produção e gerar renda.

Incentivar a produção de alimentos utilizando-se de princípios agroecológicos e favorecer a segurança alimentar com qualidade e variedade, é sem dúvidas, resgatar a tradição da fartura no campo, abandonada em função da monocultura da atividade leiteira.

2 – Metodologia: no seio da família, partilha e decisões

A metodologia utilizada na implantação dos quintais seguiu um dos princípios básicos da agroecologia, a valorização do conhecimento e das orientações técnicas que os agricultores/as detêm.

Juntamente com toda a família foram tomadas as decisões mais importantes do processo como, localidade escolhida, espécies e variedades a serem cultivadas, espécies animais que seriam criadas para fazerem a integração das culturas, entre outras.

Neste sentido, os quintais não seguiram um modelo padrão, pois o processo participativo da família na construção da concepção do mesmo levou à diferentes resultados, principalmente por utilizar os recursos disponíveis na propriedade e a tecnologia alternativa que melhor se adequaria a tal realidade.

Basicamente, os quintais contemplaram plantas frutíferas, hortaliças em geral, grãos e animais de pequeno porte, como peixes, aves e suínos, num processo de inter-relação na cadeia alimentar.

As famílias beneficiadas com o projeto foram aquelas que mais gostariam de passarem do modelo convencional de agricultura para o alternativo, e sentiam a necessidade de melhorar e diversificar a produção, para tentarem sair da cadeia do leite.

Estas, por sua vez, são famílias que estão intimamente ligadas a associações de pequenos produtores, sindicatos dos trabalhadores rurais e as feiras de pequenos produtores, e que sabem da importância de um modelo sustentável de agricultura que respeite próprio agricultor/a e o meio ambiente.

3 – Construímos em mutirão quando juntamos nossas mãos

O processo prático da implantação dos quintais contou com grande apoio das comunidades das famílias beneficiadas, vários encontros e mutirões foram realizados para executar o trabalho de forma coletiva.

O trabalho de (in) formação técnica realizada com os agricultores/as e o acompanhamento da implantação dos quintais foi realizado pela equipe técnica da Comissão Pastoral da Terra.

Alguns quintais foram implantados totalmente com recursos das famílias. Outros receberam apoio financeiro da Populorum Progressio (Braço social do Vaticano na América Latina) e a contrapartida dos beneficiários.

4 – Vidas que tecem novos horizontes

Vários resultados positivos eclodiram desde a implementação do projeto. O primeiro e talvez mais importante foi a melhoria na quantidade, qualidade e variedade de produtos alimentícios que as famílias passaram a ter à mesa. São dezenas de quintais implantadas em diversas regiões

Algumas famílias conseguiram resultados economicamente mais significativos, passando a comercializar os produtos, principalmente hortaliças, nas feiras dos pequenos produtores, no Programa de Compra Antecipada com Doação Simultânea e agora mais recente, no programa da merenda escolar.

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