Quinta, 24 de abril de 2014
Artigos - Opinião
17.03.2009
Brasil –Pescadores, extratores da Ilha de Maracujá
Rogério Almeida
Adital

Nas ilhas da parte Sul da cidade de Belém, dezenas de famílias organizam sua existência material e social em função das águas da baia do Guajará e rio Guamá. São pescadores, extratores que ocupam as ilhas de Maracujá, dos Patos, Jussara, dos Papagaios e ainda a ilha do Combu onde identificam um setor da Frente e outro da Costa.

Se a vizinhança de Belém representa algumas vantagens de acesso ao mercado, pois vendem seus produtos nos portos do Açaí, Palha, Custodio, e ainda tem relativas facilidade para os serviços de saúde e até os educativos, esta posição vem constituindo-se uma fonte de conflitos socioambientais.

O quadro de conflitos socioambientais tem sido exposto publicamente, em diversas oportunidades pelos pescadores e extratores. Eles vivem situações ambientais adversas que provocam a destruição dos recursos e com isto a insustentabilidade das unidades domesticas. A desestruturação dos modos de vida de grupos sociais avança sob o olhar indiferente do Estado e a sociedade urbana que os invisibiliza, produzindo os dejetos e a poluição em escala incontrolável que chega com cada maré. O poder público e os citadinos estão alheios ao profundo dano que eles geram do outro lado da cidade. Em Oficinas realizadas pelo Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (1) estão registradas as situações que os afetam, aqui narradas.

Trata-se de antigos ocupantes das ilhas que se dedicam à pesca, manejo e cultivo do açaí, de cacau. A pesca é uma das atividades mais atingida pela poluição das águas da baia do Guajará e rio Guamá. Diariamente, o fluxo das águas carrega o lixo da cidade. São toneladas de resíduos que se acumulam nas margens dos furos e chegam até os igarapés. Entre esses resíduos estão animais mortos (cavalos, cachorros, bois e peixes que são despejados dos mercados); plástico, pneus, resíduos de madeira de serrarias, óleos derramados nessas águas.  Os pescadores acompanham a perda de cardumes. Atualmente é difícil obter as espécies que antigamente encontravam em abundancia (mapará, pescada, dourada). Hoje, nas redes de malhar, em vez de peixes ficam depositados plásticos pneus assim como os espinheis que fisgam esses tipos de dejetos. Desta forma, a obtenção de alimentos e meios de vida com a pesca está ficando reduzida. Cada vez é menor a pesca para o consumo familiar e muito menos para comercializar nos portos da cidade. A pesca de camarão é freqüente, mas o tamanho da espécie (o Pitu) é cada vez menor.

A economia doméstica tem outra dinâmica na época da colheita do açaí e do cacau, produtos que são a base da sobrevivência das famílias. Contudo, muitos recursos têm-se esgotado como as palmeiras que produzem as palhas (buçu, palheira, jupati), madeiras por força da pressão do mercado.

Crianças e adultos não podem consumir a água do rio ou mesmo se utilizar desta para banho, pois facilmente estarão sujeitos a doenças gastrointestinais, micoses que os obrigam a buscar frequentemente serviços de saúde, os quais resultam precários e custosos.  Em 2003 apresentou-se um caso de febre tifóide que está documentado.

Diariamente, membros das famílias necessitam realizar deslocamentos para “encher” os baldes. Isto eles fazem no Porto do Açaí, da Palha, mas novamente estão expostos as águas contaminadas nas torneiras públicas. Outros buscam água nos poços da terra firme na localidade de Santa Quitéria, Boa Vista do Acará, longe das ilhas e em propriedades particulares.

Os problemas que se apresentam no cotidiano desses grupos que ocupam as ilhas é a inviabilidade da pesca, a água cada vez mais imprópria para o consumo, portanto, as dificuldades para reproduzir seus modos de vida.

Os pescadores e extratores das ilhas do sul de Belém reivindicam das Secretarias do Estado e do Município medidas radicais para evitar a poluição da baia do Guajará e do rio Guamá que constituem o entorno das ilhas ao sul de Belém.

Projetos isolados ou individualizados do tipo sistemas de abastecimento de água para um grupo de famílias em uma ilha não resolvem a poluição da massa de águas aqui descrita. Se Belém não pára de poluir a baia do Guajará e o rio Guamá eles não tem condições de sobrevivência material e social. Ainda, os pescadores e extratores das ilhas ao Sul de Belém observaram que este tipo de medida não tem chegado até eles. Neste caso, a atenção tem sido voltada para a ilha do Combu (Frente da ilha e foi abandonada a “Costa”).

A Associação dos Ribeirinhos, Pescadores, Extrativistas da ilha de Maracujá tem feito diversos contatos nos órgãos públicos: Secretaria do Meio Ambiente, IBAMA, CODEM, Prefeitura do Município de Belém para expor esta situação lamentável e exigir ações. Nada tem sido feito. Por este motivo conclamam jornalistas, pesquisadores, tecnocratas, políticos para observar in loco a situação a que estão expostos e ainda para contemplar as margens dos furos, após a descida da maré, inundadas por plásticos, pneus e até cadáveres nesta parte do Planeta apresentada como “Portal da Amazônia”.

 
Foto 1. Lixo acumulado na “praia” da casa do senhor Raimundo Santos, na ponta da ilha do Maracujá. (14/3/2009).

 
Foto 2. Cadáver de um boi carregado pelas águas e observado na margem do furo São Benedito, na ilha do Maracujá. As crianças fizeram a descoberta e fazem gesto de um ar irrespirável. (Dezembro, 2008)

 
Foto 3.  Cadáver de búfalo encontrado à margem da ilha do Maracujá (Dezembro, 2008)

 
Foto 4. Crianças e adultos reunidos fazem uma jornada de limpeza das “praias” a frente de suas casas. Eles mostra garrafas PET, lâmpadas fluorescentes, garrafas de óleo para combustível, escopos, plásticos, sacolas plásticas, entre outros.

Nota:

(1)As observações, narrativas e fotografias resultam das Oficinas realizadas na ilha de Maracujá, formando parte da pesquisa Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia  em outubro, dezembro de 2008 e março 2009.

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