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Adital - Bolívia - A nova constituição é muito positiva. Entrevista com René Cardozo
Sábado, 01 de novembro de 2014
Novo Doe
Artigos - Opinião
06.01.2009
Bolívia - A nova constituição é muito positiva. Entrevista com René Cardozo
IHU - Unisinos
Adital

Vivendo um dos períodos políticos mais importantes da sua história, com um presidente de origem indígena, a Bolívia é analisada, nesta entrevista, por René Cardozo, jesuíta boliviano e amigo de Evo Morales, com quem a IHU On-Line conversou por e-mail. Assim, René fala sobre a situação política e social da Bolívia hoje e, desta forma, reflete sobre o governo de Evo Morales e as medidas tomadas pelo governo em relação à Constituição, aos novos atores que participam da política nacional e, também, sobre a crise financeira mundial. “A Bolívia vive um processo profundo de mudança em suas estruturas políticas, econômicas e sociais. Talvez o que mais caracterize este processo é o atual governo, que inclui atores políticos e sociais novos nas estruturas políticas do país”, relatou.

René Cardozo é um jesuíta boliviano e politólogo diplomado pelo Instituto de Estudios Políticos de Paris. É pároco de uma zona rural de Cochabamba e atual Provincial dos Jesuítas da Bolívia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a situação atual na Bolívia pode ser caracterizada?
 
René Cardozo – A Bolívia vive um processo profundo de mudança em suas estruturas políticas, econômicas e sociais. Talvez o que mais caracterize este processo é o atual governo, que inclui atores políticos e sociais novos (como campesinos e povos originários) nas estruturas políticas do país. Essa composição do governo tem gerado reações diversas, favoráveis por parte das pessoas mais pobres e muito crítica por parte daqueles atores que detinham muitos benefícios antes.

IHU On-Line – Como você analisa o governo de Evo Morales?
 
René Cardozo – Acredito que é um governo necessário para a Bolívia. Por um lado, tem permitido a inclusão de atores novos nas estruturas do país e tem sido capaz de acompanhar quadros democráticos e participativos. Por outro lado, tem permitido que a Bolívia volte a normalizar sua situação democrática e institucional que ao longo de vários anos era profundamente instável. Ao mesmo tempo, acredito que é um governo que está pagando por sua pouca experiência em administração, o que provoca algumas contradições internas e uma débil capacidade de trabalho planejado.

IHU On-Line – Que papel, em sua opinião, Evo Morales desempenha na América Latina?

René Cardozo – Acredito que ele assegura a presença de um setor pobre nas estruturas de poder. Muitas vezes essa camada social pensa que não pode ascender a esses cargos e Evo outorga o sinal de que eles podem sim.

IHU On-Line – Que imagem tem a Bolívia a respeito do Brasil?

René Cardozo – Para a Bolívia, o Brasil é um país amigo. O presidente Lula é muito querido na Bolívia e representa também essa imagem de setores pobres na sociedade. Ao mesmo tempo, somos conscientes do grande potencial do Brasil, de sua capacidade de liderança na América do Sul e esperamos, portanto, apoio para uma economia pequena como a nossa.

IHU On-Line – Como o povo boliviano recebeu a nova Constituição Federal e qual é a sua análise pessoal desse documento?

René Cardozo – Creio que a nova Constituição é muito positiva, já que introduz estruturas e instituições que considero necessárias para o crescimento da Bolívia: as autonomias, políticas sociais e inclusivas. Talvez a tarefa mais complexa seja a implementação desta Constituição, que entre outras coisas requerirá a realização de eleições gerais.
 
IHU On-Line – Como o movimento indígena e os movimentos sociais rurais têm contribuído na formulação desta nova Constituição? As pessoas se sentem beneficiadas por ela?

René Cardozo – Os indígenas têm a sensação que pela primeira vez estão sendo levados em conta. As constituições sempre foram elaboradas por parlamentares e poucas vezes por uma Assembleia Constituinte eleita pelo voto universal.
 
IHU On-Line – A oposição tem trabalhado em favor de quem ou do que?

René Cardozo – A oposição se mostra muito dividida. São os comitês cívicos que têm tomado a liderança na tarefa de assumir a posição de opositores do atual governo. É uma oposição caracterizada pela presença de agroindustriais, empresários e gente de classe média.
 
IHU On-Line – E como o senhor observa as medidas que o governo boliviano tem tomado em relação à crise financeira que o mundo enfrenta?

René Cardozo – Considero que o governo, todavia, tem refletido pouco sobre as conseqüências da crise financeira. Nosso presidente considera que a Bolívia deve terminar com a “ingerência” dos Estados Unidos e aposta em mercados mais latino-americanos.

IHU On-Line – Várias vezes se divulgou que o presidente Hugo Chávez informou que venderá gás para o Brasil, Argentina e Chile, e que isto afetará o mercado na Bolívia. Qual é a sua opinião sobre esta questão?

René Cardozo – Considero que a Venezuela é muito amiga da Bolívia, mas, quando se consideram aspectos comerciais das empresas estatais, muitas vezes as lógicas são diferentes. Ali primam outros interesses. Penso, sem dúvida, que o presidente Chávez não permitirá que se afetem grandemente os mercados bolivianos.

IHU On-Line – O que as pessoas dizem sobre a relação de Evo Morales e Chávez?

René Cardozo – Para alguns, é uma relação negativa já que tem gerado uma espécie de dependência de um sobre o outro. Para outros é positiva já que tem permitido a concretização de uma ajuda econômica e social.

IHU - Unisinos

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